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Mulheres Salvatorianas Solidárias pela Esperança e pela Vida
Senti-me pequena ante o pedido da Ir. Therezinha ao ser solicitada a partilhar minhas experiências como Salvatoriana neste significativo encontro de superioras e delegadas de países diferentes. Eu pensei comigo mesma, quando eu estivesse na frente de vocês, como deveria começar e por onde começar, pois a minha vida inteira é uma caminhada de esperança e confiança. Então eu disse a mim mesma: Por que não começar com uma reflexão sobre as duas grandes caminhadas de esperança do povo do Antigo Testamento? A primeira foi feita por Abraão, o Pai de fé. Uma viagem do conhecido ao desconhecido, do familiar ao estrangeiro. Quando Deus chamou Abraão, disse: "Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrar.” (Gen 12,1). Abraão não sabia para onde ir, mas confiando e esperando na promessa de Deus ele foi. Sua viagem foi marcada por sofrimentos, tentativas e mesmo fracassos. Mas ele nunca oscilou em sua confiança na promessa de Deus. Deus o abençoou e fez dele uma grande nação. A segunda caminhada de esperança foi feita por Israel como nação. Deus lhe disse que o que livraria dos laços de escravidão do Egito e lhe daria a Terra Prometida - uma terra onde correm mel e leite. A caminhada não foi lá muito agradável; aqueles que peregrinavam tiveram que passar por sofrimentos inumeráveis durante quarenta longos anos, mas eles puseram sua esperança em Deus e confiaram na sua Palavra. A minha caminhada de esperança é semelhante. Uma caminhada feita em total confiança na Palavra de Deus. Antes de partilhar minha caminhada de esperança pensei em começar com a vida Pe. Jordan, resumindo-a em duas dimensões, e a vida de Madre Maria dos Apóstolos, em duas características, relacionando-as às minhas experiências de esperança e de vida como Salvatoriana.
Percorrendo o Diário Espiritual de Padre Jordan fui movida a ver as belas tonalidades de como Pe. Jordan integrou sua vida inteira com Deus por meio da Escritura, e com o povo, tornando-se uma fonte de vida e esperança. A primeira dimensão é:
1. União (Attachment): Sua vida inteira foi unida a Deus. Ele foi tão seduzido pelo amor de Deus que mesmo em meio ás tribulações, lutas e preocupações, altos e baixos, ele pôde confrontar a vida com a esperança. Foi sua solidariedade com Deus que o fortaleceu na missão. Diz-se que a vida de um cristão é um contínuo ir da presença do povo à presença de Deus, e um contínuo vir da presença de Deus à presença do povo. Se Pe. Jordan foi um ícone de esperança e vida para as pessoas neste mundo, foi por causa da sua solidariedade com Deus. Ele veio da presença de Deus ao povo e por sua vez levou os desejos e necessidades do povo à presença de Deus. Ele construiu a base de sua vida no fundamento da Escritura. Ele recebeu consolação quando estava atribulado; apoio quando se sentiu fraco e respostas quando estava confuso. Sua fonte de energia derivava da Palavra de Deus. Diz-se que a Bíblia é o telefone sempre a tocar; tudo o que precisamos fazer é tirá-lo do gancho e ouvi-lo, pois Deus está nos falando. Pe. Jordan percebeu com o salmista que “a Palavra é lâmpada para meus pés, e uma luz para o meu caminho" (Salmo 119,105).
2. Desapego (Detachment): A união de Pe. Jordan com Deus e sua afeição pela Palavra de Deus nos leva à segunda dimensão, do desapego. Ele estava incondicionalmente unido a Deus de modo que se desapegou totalmente das bênçãos de Deus. Isto parece um paradoxo, não é? O relato do jovem rico (Mc. 10, 17-22) nos ajuda a entender o paradoxo. O jovem que seguia Jesus era bom; ele seguia seus mandamentos e era abençoado por Deus com bênçãos abundantes e riquezas. Ele perguntou a Jesus o que devia fazer para entrar na vida eterna. Ao ouvir Jesus, seu rosto ficou abatido, e foi embora muito triste (Mc 10,22). Por quê? Porque Jesus lhe disse: “Dá o que tens”. Partilha as bênçãos que Deus te deu com os outros e terás a vida eterna. Pe. Jordan foi uma pessoa que se esvaziou continuamente, doando-se totalmente a Deus e ao povo. Ele foi uma bênção para os outros, uma fonte de esperança e vida que reflete sua preocupação pelos outros. Olhando para Jerusalém, Jesus chorou porque eles estavam espiritualmente mortos. Padre Jordan também chorou por aqueles que viviam sem conhecer o doador da vida. Ele permitiu que a compaixão se movesse em seus olhares e suas ações. Ele abriu seu coração para os não desejados, ele ouviu e tomou conhecimento das preocupações da vida dos outros. Ele ofereceu paz e cura aos feridos, partilhou um amor que se abriu para além de si mesmo. Ele caminhou para além das zonas de conforto e assumiu riscos.
Percebo que estas duas dimensões são o centro determinante da fonte de esperança e vida de Pe. Jordan. Por outro lado, duas características determinaram a vida de Madre Maria dos Apóstolos. São enumeradas duas grandes qualidades que definiram um apóstolo em Mc. 3, 14-15: 1. estar com ele; 2. sair dele. Foram precisamente estas as duas razões que inspiraram a vida de Maria dos Apóstolos em sua vida e missão, que ela realizou com tantas graças. Lendo sua vida poderíamos detectar duas características que a fizeram única em sua missão de ser fonte de esperança e vida.
Discipulado: Vendo o anúncio da Sociedade Apostólica Instrutiva na revista “Der Missionar” ela sentiu o desejo profundo de submeter-se, que expressou assim: "Ó Sociedade Apostólica, zelosa pelas almas, espalha-te em todos os lugares, abrange e renova o mundo inteiro, transforma as nações, converte os incrédulos e conduze-os todos, ensina e santifica a todos”. Ela fez uma escolha deliberada. Uma escolha de compromisso total da aceitação da vontade de Deus, de oferecer-se totalmente para ser Apóstola de Cristo. Como a bem-aventurada Virgem Maria, ela repetia, "Não se faça a minha, mas a santa vontade de Deus seja feita”. Foi uma caminhada de busca e de encontro, de questionamentos e de reflexão; uma caminhada da segurança para a insegurança; uma caminhada da segurança para o abandono; uma caminhada da influência para o serviço. Esta jornada, que ela estava determinada a assumir, foi marcada com incertezas e inseguranças, mas uma jornada que, por fim, a preencheria e satisfaria. É a caminhada para se tornar Apóstolo. Este caminho para a santidade, serenidade, paz e alegria inspiraram-na em sua esperança de se oferecer a Deus e confiar na sua providência e misericórdia. Ela teve uma fé bem forte, um estilo de vida simples e humilde, confiança inabalável na providência de Deus, e acima de tudo, um coração totalmente submisso e obediente à vontade de Deus.
Apostolado: O discipulado fortaleceu a bem-aventurada Maria dos Apóstolos na tarefa de sair pelo mundo para fazer a presença de Jesus conhecida a todo ser humano com quem ela se encontrasse. O apostolado foi o objetivo de sua vida, a razão de sua dedicação e sua total doação ao amor de Cristo. Seu apostolado não divergiu da visão do Fundador, mas sempre se manteve fiel. Ela nunca restringiu sua missão a uma região particular, a determinado povo, cultura ou religião, mas o estendeu a todo o universo. Embora fosse mais velha que Pe. Jordan, ela tinha a humildade de consultá-lo sempre antes de iniciar qualquer trabalho. O apostolado nunca foi uma desculpa para escapar das regras e regulamentos da congregação, ou a rotina diária da comunidade na qual viveu. Ela sempre procurou equilíbrio entre sua vida como religiosa e sua missão. Foi por causa do cumprimento dos deveres religiosos que ela encontrou grande satisfação na missão. Estes dois aspectos não são duas qualidades separadas, mas estavam entrelaçados maravilhosamente num só. Como filha espiritual de Padre Jordan, ela sempre encontrou a vontade de Deus em sua orientação.
Se não estivermos bem unidas a Deus, fazendo da Escritura o fundamento de nossas vidas, não poderemos desapegar-nos de Suas bênçãos para sermos uma bênção para os outros e sermos ícones de solidariedade, esperança e vida. Minhas amigas, se eu alcancei qualquer coisa que valha a pena em minha vida é por causa da inspiração que me ofereceram estas duas grandes realidades. Eu gostaria agora de narrar como estas duas inspirações guiaram minha caminhada de esperança e vida.
Meu chamado a uma caminhada de esperança
Minhas queridas irmãs, a minha caminhada como Salvatoriana foi de esperança. Quando decidi tornar-me religiosa, eu quis entrar numa congregação que tivesse convento em minha aldeia. Ao chegar à superiora, (uma estudante do Regina Mundi que fizera seus estudos em Roma, ficando hospedada em nossa Casa Mãe), e partilhando com ela minha intenção de tornar-me religiosa, ela me dirigiu imediatamente à Ir. Sylvia em Villoonni-SDS. Para mim foi uma viagem ao desconhecido. Eu desejava algo, mas Deus revelou que tinha outros planos para mim. Ele disse: "Vá adiante para o lugar que vou lhe mostrar”. Confiando e colocando minha esperança na Palavra de Deus, entrei numa Comunidade Salvatoriana. A viagem não foi um caminho de rosas. Passei por dificuldades, lutas, sofrimentos e até mesmo provações em minha vida como Salvatoriana. Mas minha confiança completa em Deus me manteve prosseguindo sem retroceder. Diz-se que um cristão é alguém que caminha em direção ao alvorecer; nós avançamos ou necessariamente retrocedemos. Para o Cristianismo, é algo dinâmico, não estático. Se não há progresso então há regresso, como São Paulo diz, não há “morno" no Cristianismo. Assim é na vida religiosa, mas isso não significa que nós seremos livres de dúvidas. Nós as teremos. Eu tive dúvidas, perguntas, estive confusa e às vezes ainda estou, com a obra de Deus em minha vida, mas eu confio que ele me conduzirá. Ele nunca me abandonou. Do mesmo jeito que abençoou Abraão e fez dele uma grande nação, da mesma maneira que ele deu a Israel a Terra Prometida, assim ele me abençoou, fazendo-me parte de uma família maior, onde eu posso desfrutar e partilhar a companhia de tantos irmãos e irmãs no mundo inteiro. Estou feliz e orgulhosa de pertencer à Família Salvatoriana.
A caminhada da esperança começa
No mundo secular, para a maioria do povo, vocação significa simplesmente o que a pessoa faz para viver, sua carreira ou ocupação. Esta definição secular de vocação geralmente insinua só atividade que produz salário. Mas a definição religiosa é mais literal e ainda mais complexa. Vocação, literalmente, significa um chamado. É aquilo que a pessoa é chamada a fazer, que pode ou não coincidir com seus desejos e ambições. Neste sentido, vocação implica em relacionamento. Porque, se alguém é chamado, naturalmente alguém deve estar chamando, e acredito que este Alguém é Deus. Desarraigada do conjunto da aldeia e de um pequeno grupo famíliar em que eu cresci, eu fui plantada numa situação completamente estrangeira. Da mesma forma que uma pessoa de olhos vendados não sabe para onde vai, eu também me senti assim, e deixada na escuridão. Antes de qualquer coisa se esclarecer, fui enviada à Áustria para começar minha formação. A nova situação, a cultura, o povo, a língua, tudo estava além da minha compreensão. A única coisa que eu tinha era a luz da esperança de que Deus não me abandonaria. Completando a minha formação inicial, fiz a primeira profissão. Como irmã jovem numa comunidade, eu me senti frustrada com o pensamento que o futuro seria triste e sem esperança. Naquele momento de insegurança, vi um raio de esperança nos olhos de uma irmã idosa, que me segurou dizendo firmemente: “não tenha medo, a situação não é tão ruim quanto você imagina, porque você é a nossa ESPERANÇA”. Nunca esquecerei essas palavras que me encorajaram no começo da caminhada e me fortaleceram para continuar a jornada de esperança com vigor e entusiasmo. Eu percebi que é assim que uma Salvatoriana deveria levar vida aos espíritos mal-humorados, frustrados e até mesmo mortos. Foi isso que Pe. Jordan e Madre Maria dos Apóstolos fizeram e esperam de cada Salvatoriana. Esta perspicácia ativou minha esperança a ser “uma esperança para os desesperados" e "vida para os sem vida" (mortos espiritual, emocional e materialmente).
Cruz, o sinal da esperança e da vida
As palavras de Jesus: "Se você quer me seguir, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" eram bastante difíceis para eu compreender. Nunca pude captar totalmente esta idéia da cruz, porque eu era uma menina, nunca gostei da idéia que Jesus devia sofrer e morrer de uma morte vergonhosa, nas mãos dos inimigos. O Tempo Quaresmal e a Sexta-Feira Santa eram os dias que eu menos gostava, por causa da atmosfera nas igrejas, que faziam uma mudança radical durante aquele período. As flores que adornavam o altar desapareciam, o Glória não era cantado, o padre usava paramentos escuros, os temas e reflexões eram sobre a paixão e morte de Cristo, exigia-se mais jejum e penitência, tudo me parecia tristonho. À medida que os anos passavam como Salvatoriana, quando eu tinha que confrontar-me com lutas e dores, comecei a perceber a beleza da cruz. Eu sabia que é a cruz que pode trazer esperança e vida, especialmente quando sofremos pelos outros. Também percebi que nenhum cristão pode estar separado da cruz. A cruz sempre será símbolo de esperança e vida para todos os que acreditam, e especialmente para nós religiosas. Eu experimentei realmente o fardo da cruz quando tive que me separar dos meus familiares. Ainda lembro vivamente o dia em que ouvi a notícia do falecimento de minha mãe e permaneci de pé, sozinha, junto à sua tumba; assim foi também um choque ouvir da morte de meu cunhado, que assumiu o lugar de meu pai, tomando conta de mim.
Um livro, justamente famoso de Henri Nouwen, intitulado "O Médico Ferido”. A mensagem do livro, como seu título sugere, é que se nós havemos de ser curadoras efetivas, temos que nos permitir, dentro de limites, ser continuamente feridas. É somente a partir das nossas feridas que podemos curar. Sempre que eu tiver que carregar a cruz, poderei carregá-la com mais alegria, refletindo na bela canção de Pe. Jordan...
A cruz é tua vida
A cruz é tua salvação
A cruz é tua coroa
A cruz é tua glória
A cruz é tua esperança
A cruz é teu escudo
A cruz é tua proteção
A cruz é tua porção
A cruz é tua alegria
Salve, ó cruz!
Salve, ó cruz, nossa única esperança.
Porque não me glorio em nada a não ser na cruz do Senhor Jesus Cristo!
A caminhada de esperança continua
Força na Fraqueza
Ao colocarmos nossa vida na presença de Deus, percebemos nossa indignidade e fraqueza. Depois da pesca milagrosa, Pedro caiu imediatamente aos pés de Jesus e disse: "Afasta-te de mim porque sou um homem pecador” (Lc 5,8). Mas a resposta de Jesus foi: “Não tenha medo, de agora em diante você será pescador de homens”. Só quando percebemos as nossas fraquezas é que sentimos necessidade da graça de Deus e a necessidade de sermos fortalecidas. Isso requer muita humildade. São Paulo percebeu esta grande verdade e pronunciou a mais famosa máxima: "Quando sou fraco é que sou forte”.
Um das fases mais importantes da minha vida foi quando tive que tomar uma decisão muito dura: dizer sim, mesmo contra a minha vontade. Isso aconteceu quando me foi pedido que coordenasse a missão na Índia como Superiora Regional. A pergunta que fiz a Deus foi aquela que São Francisco de Assis fazia freqüentemente: “Senhor, que queres que eu faça?” Quando eu me sentava na capela em Sarupya, Bangalore, sozinha com Ele, na Santíssima Eucaristia, a cena que brilhava em minha mente era a Anunciação a Maria Santíssima, que disse SIM mesmo sem compreender completamente o impacto do SIM. As palavras que ressoavam em meus ouvidos eram as de Padre Jordan: “Lança-te nas mãos de Deus, confia nele. Ele te protegerá. Ele te ama”. Até mesmo depois destas garantias meus medos nunca pararam, e continuei me perguntando: Posso realizar esta tarefa com minha limitação? Meu trabalho trará os frutos desejados para o desenvolvimento da congregação na sua amplitude e a missão da Índia em particular? Senhor, por que eu? Eu que sou fraca e frágil? Eu, que não sou talentosa, que estou quebrada? Mas a resposta da Escritura para mim sempre é: "Minha graça te basta". Aceitei a responsabilidade e estou continuando minha caminhada de esperança. Meus amigos(as), a maior verdade que me mantém a caminho é que, em minha fraqueza e quebradura, experimento a graça e a força de Deus. Percebo que não sou chamada para fazer coisas extraordinárias, mas coisas ordinárias de um modo extraordinário, e só posso realizar isto com a ajuda de Deus. O sucesso de Pe. Jordan e de Madre Maria dos Apóstolos reside principalmente na confiança deles e na esperança da ajuda de Deus em cada situação de suas vidas.
Tradução da esperança em vida
A esperança recebida pode se tornar uma fonte de vida quando nós, como Jesus, como Padre Jordan e Madre Maria dos Apóstolos, nos desapegarmos das bênçãos e nos tornarmos uma bênção para os outros. Jesus veio a este mundo exatamente para fazer isso, mesmo às custas de sua própria vida. Ele disse: “Eu vim para que vocês tenham vida e vida em abundância”. A vida gera vida.
Seguindo a mudança radical que aconteceu em sua vida, Pe. Jordan sonhou em dar vida às suas esperanças. O sonho foi parte de sua vida. Ele ousou sonhar. Ele traduziu os sonhos que cultivou em vida. Ele sonhou com uma Sociedade que se espalharia pelo universo inteiro. Ele realizou este grande sonho pregando o amor de Jesus e estendendo sua salvação a todos, independente de casta, credo, cor e língua. Ele teve uma visão. Jordan acreditou no poder de Deus e em seu poder dando vida aos sonhos que ele teve. Seguem as três coisas que eu sinto que podem conceber vida.
A Esperança traz Vida
Gostei dos meus anos como formadora. Deus me deu a chance de traduzir a esperança e a confiança em vida. Conforme disse acima, como Salvatoriana jovem experimentei o raio da esperança que traduzi na vida por meio das palavras de uma irmã idosa, assim decidi e disse a mim mesma que eu seria um raio de esperança e daria vida às formandas. Elas receberam o chamado de Deus, e é Deus que modela, forma e guia. Tudo o que eu preciso fazer é caminhar com elas dando-lhes esperança e vida, constante e continuamente, assegurando-lhes que o Deus que as chamou nunca as esquecerá nem as abandonará. Deste modo senti que muitas podiam descarregar seus fardos, sentir-se confortadas e prosseguir com leveza. Na casa de formação percebi que dar esperança traz vida nova.
Viver uma vida em comunidade tem suas próprias vantagens como também desvantagens. As vantagens nutrem a vida, enquanto as desvantagens dificultam o crescimento. Em todas as comunidades onde vivi, tentei aumentar as vantagens do meu próprio jeito (my own little way), reduzindo fricções, desentendimentos, pressentimentos, e relacionando-os, na medida do possível, com o carinho e a bondade. Achei que isso estimula a vida.
O Perdão gera Vida
As primeiras palavras ditas por Jesus na cruz, e registradas, foram: "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que estão fazendo" (Lc. 23,34). Perdão para quem? Para Judas que o traiu, para os discípulos que o abandonaram, para Simão Pedro que o negou, para os soldados que o açoitaram, cuspiram e o coroaram de espinhos, para Pilatos que o desconheceu, e finalmente para todos os que eram responsáveis por sua crucifixão. Por quê? Porque eles não sabem o que estão fazendo. Da Cruz, a árvore da vida, Jesus, o doador da vida, trouxe vida e vida em abundância por meio do perdão. A missão inteira de Jesus consistiu em dar vida aos outros, e Ele fez isso principalmente trazendo o perdão. Antes de cada cura, Ele perguntava: “Você acredita que eu posso curá-lo?” E acrescentava: "Seus pecados estão perdoados”.
A maioria das vezes não estamos prontas a perdoar e a esquecer. Como Salvatoriana, percebo que a maioria dos problemas em nossas comunidades podem ser facilmente resolvidos se apenas nós perdoarmos umas às outras. Isso exige muita coragem e força. Somente aqueles(as) que estão unidos a Deus, que realmente experimentaram o dom do perdão de Deus, podem fazer isso. Se fizermos apenas isso, já será característica de uma Salvatoriana. Para começar, precisamos valorizar a bondade nas outras pessoas em vez de ampliar seus lados negativos. Sempre me lembro desta declaração: Todo bem tem algo de ruim, e todo mal tem algo de bom. Em segundo lugar, precisamos deixar de julgar os outros(as) porque não conhecemos sua situação, seu temperamento, sua realidade, e suas raízes familiares. Precisamos perguntar a nós mesmas: Se eu estivesse em situação semelhante, eu seria melhor que ele(a)? Em terceiro lugar, refletir sobre nossa vida e as muitos bênçãos que recebemos de Deus. Não podemos deixar de amar nossas irmãs, mesmo quando estivermos feridas, e dizer com Jesus: "Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”, e assim ser uma fonte de vida para os outros.
3. Partilhar o nosso eu-mesmo(a) “self”
O contexto de nossos tempos é assinalado por um desespero geralmente partilhado como “ter, possuir” (pessoas desesperadas para ter mais) e “não ter” (pessoas desesperadas para sobreviver). Esta crise profunda se manifesta social, econômica, cultural e politicamente. A nova era da globalização traz concentração extrema de riqueza e poder, em contraste com imensas deficiências e privações de muitos. Em tal situação, dar esperança a alguém é nobre e certamente divino. No contexto da Índia, vejo a distância muito grande entre os extremos de pobreza e o máximo de prosperidade e riqueza. Fazer a ponte sobre as duas situações, num futuro próximo, pode ser uma tarefa impossível. Mas olhar para esta situação desanimadora exige que não percamos a esperança, à maneira da pequena semente de mostarda que cresce e se torna uma árvore grande, e da pequena quantidade de fermento que leveda toda a massa. Igualmente nós, com o nosso jeito simples, dentro de nossas limitações e com nossas habilidades, em solidariedade com Deus, podemos ser uma faísca de esperança partilhando o conhecimento de verdade.
Nós Salvatorianas na Índia, fazemos isso dando educação em quase todos os lugares onde estabelecemos nossos conventos. Há um provérbio que diz: “Antes que dar um peixe, é melhor ensinar alguém a pescar”. Eu também acredito que, quando ajudamos as pessoas, a nossa ajuda deve ser concreta, uma ajuda que permite à pessoa levantar-se e caminhar com as próprias pernas. O melhor modo de fazer isso é erradicar a ignorância e trazer a luz do conhecimento. Sinto ser este o melhor modo para podermos oferecer esperança e vida aos outros.
Mas antes de nos arriscarmos no mundo, precisamos fazer ordem na casa. Antes de nos tornarmos testemunhas da esperança e vida para os de fora, precisamos ser fonte de esperança e vida na comunidade onde vivemos. Mas todas nós sabemos que é mais fácil dizer as coisas que fazê-las. Se não formos submissas diariamente e, não nos dedicarmos humildemente à vontade de Deus, como Pe. Jordan e Madre Maria dos Apóstolos, não poderemos ser fontes de vida e esperança. Com a ajuda destas duas realidades religiosas, esforcemo-nos para realizar a missão da nossa congregação.
Antes de concluir, gostaria de cantar apenas duas linhas de uma canção em Malayalam, meu próprio idioma:
Deivasneham varnicheedan vakkukal pora
Nanni cholli theerkkuvanee jeevitham pora.
O significado da canção é:
"Não há palavras suficientes para explicar o Amor de Deus
e o tempo de uma vida inteira não é suficiente para agradecer-lhe.
Se alguém me perguntar o que eu gostaria de ser no próximo nascimento, se houver algum, eu diria 100 vezes que gostaria de ser Salvatoriana. Obrigada por me terem ouvido pacientemente. Que as bênçãos de Deus permaneçam conosco.
Ir. Lilly Kurian SDS
Villoonni, Índia, 13 de novembro de 2006
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